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O Bola da Vez é o espaço que o Vox News
reservou para, através de entrevistas, mostrar o trabalho e a
opinião de profissionais que estão se destacando no meio da
comunicação e daqueles de quem ainda vamos ouvir
falar...
Por Amanda Corrêa
Alguns profissionais talentosos ganham reconhecimento no Brasil e, por conseqüência, são convidados a atuar no exterior. É uma situação comum, mas em alguns casos ocorre o inverso. O diretor de criação brasileiro Marcelo Coutinho é um exemplo de que desempenhar um excelente trabalho fora do país significa sucesso, e muitas vezes, um bom motivo para ser convidado a voltar ao seu país de origem.
O publicitário atuou em grandes agências brasileiras, quando decidiu fazer as malas e aventurar-se profissionalmente na Europa. Há 9 anos no velho mundo, conseguiu o reconhecimento do mercado da publicidade por meio de diversas premiações. Um das mais importantes é o primeiro shortlist da história da República Tcheca no Festival de Cannes, e mais recentemente, no mesmo festival, um shortilist para a Finlândia, por um filme criado para a Nokia.
O resultado de tanto trabalho há quilômetros de distância do Brasil só fez com que o mercado brasileiro o notasse. Assim, Marcelo recebeu um convite da carioca Euro RSCG Contemporânea para retornar ao país como diretor de criação.
Nesta entrevista, o criativo fala mais sobre sua experiência no exterior, as diferenças culturais, sua volta ao Rio de Janeiro, entre outros assuntos. Confira.
Vox News - Conte um pouco da sua experiência no exterior.
Somente o fato de estar em um ambiente que não faz parte da infância e do convívio natural é uma experiência incomparável com a vida comum. Acordar de
manhã e ver as pessoas passando pela rua com roupas para neve, ver a arquitetura, começar o dia escovando os dentes e terminar a noite em um restaurante europeu é uma vivência cultural muito distinta. Fora o choque de
línguas nas ruas e as informações completamente diferentes, também já é um acréscimo cultural.
Aprendi todos os dias como uma criança que esponja o mundo a sua volta. Tudo sempre é novo e a distância entre os países tão pequena, não se pode achar que aprendeu o suficiente, pois a Europa sempre proporciona viagens baratas, rápidas e únicas. Como quando morava em Bratislava eu sabia que Viena ficava a 70 km, Praga a 400 e Budapeste a 370, as três capitais poderiam ser visitadas pelo rio Danúbio. Entre museus, livros, cafés, o mundo parecia que parava no tempo.
Vox News - Qual a diferença que você vê na propaganda no norte europeu e no Brasil?
O Brasil é um país de energia pura, mais energia que conhecimento, mas podemos lembrar e sentir na pele o que Monteiro Lobato quis dizer, quando afirmou que "um país se constrói com os homens e livros". Na Europa você pode mostrar um layout feito com lápis e papel e aprovar uma grande campanha. No Brasil é difícil alguém que consiga visualizar uma imagem ou mesmo entender uma idéia com a mesma facilidade e segurança.
As escolas não ensinam ninguém mais a pensar. É difícil falar isto como publicitário, mas TV não é tudo, leitura sim. Apesar de ser um Diretor de Criação com base de Diretor de Arte, eu aprendi construir títulos bons com meu lado redator, mas vejo que o all type morreu, pois as pessoas têm preguiça de ler.
Por outro lado, somos rápidos, espertos e precisos em criação. Vejo a criação brasileira como uma das melhores do mundo, a dificuldade é que o mercado, às vezes, não consegue entender a linguagem.
O Brasil é bom, o clima é excelente e a comida é ótima, mas ainda existe uma parcela social que não liga a mínima para a situação em que o país se encontra. Depois de nove anos fora, vi que não mudou o crescimento demográfico completamente errado. Pessoas têm filhos e não podem sustentar, e a boa educação é privilégio da minoria.
Lembro da música de 1970, "90 milhões em ação para frente Brasil", e em 38 anos dobramos a população, sem ter renda sólida em muitos estados, sem indústrias e gente vivendo de caridades governamentais.
Mas a vantagem de voltar ao Brasil são os amigos, a família e o trabalho que tanto gosto. As pessoas também precisam parar com a hipocrisia em dizer que "o Brasil é um país novo", EUA, Canadá e Austrália também são. O Brasil é bom demais, mas quem sabe se tivéssemos neve teríamos mais formiguinhas em vez de muitas cigarras.
Vox News - Qual a maior dificuldade que encontrou no exterior?
Com certeza não é fácil ficar longe daqueles que gostamos, mas profissionalmente e em tudo, na Europa existe muito mais organização. E no final, até gostei de ser preso na Slovakia após cruzar a fronteira. A desculpa deles foi de nunca terem visto um brasileiro por lá, então acharam
melhor prender antes e perguntar depois. Foi até engraçado ficar duas horas atrás das grades, no fim quando viram no mapa que Brasil e Bolívia não eram a mesma coisa, me soltaram.
O susto deles foi maior ainda, um dos donos da
Grey, onde eu trabalhava, era um primeiro-ministro na época. Até limparam minha roupa depois.
Vox News - Qual foi o saldo desse trabalho no exterior?
Eu trabalhei em várias agências de ponta nestes oito anos e em pelo menos em cinco na Euro, como diretor regional de criação.
O saldo abrange vários prêmios e muitos novos clientes. Só no ano passado para a Finlândia eu ganhei nove novos clientes, essa experiência já esta valendo no Brasil.
Vox News - Como surgiu o convite para atuar como diretor de criação na Euro RSCG Contemporânea?
Foi muito difícil terminar meu contrato com no exterior, eles gostavam muito de mim e do sucesso que conseguimos pela Euro em muitos países. O Gilles Beroard também é um excelente CEO.
Porém, tive um belo convite da minha nova CEO, Vivian Ferraz, que é uma ótima pessoa além de ser uma excelente profissional, depois veio, com certeza, o respaldo dos CEOs de fora do Brasil como o Douglas e o Ricardo
Monteiro.
Vox News - O que está achando de sua volta ao Brasil?
Bom, em dois meses ganhamos cinco contas, o que mais posso falar?
Vox News - Quais suas expectativas para os próximos anos?
Primeiro preciso me encontrar como brasileiro, e melhorar meu português. O resto vem depois.
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